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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Menina assanhada

Danielle Souza

Em pleno sábado à noite, com tantas outras coisas para fazer resolvi sentar na porta de casa para jogar conversa fora, saber dos babados, das fofocas da rua e rever os amigos. Tinha pouco mais de quinze dias que não vinha para casa. Conversa vai, conversa vem...todo mundo começou a ir embora, era hora da novela das oito. Só quem acabou ficando fui eu e mais duas meninas, Ananda de 12 anos e Carol de 15. Mesmo assim a conversa continuou e aos poucos o papo foi mudando. Ananda parecendo uma gralha doida não parava de falar. Contou sobre todos os garotos que Jéssica, uma piriguete de 15 anos que tem lá na rua, havia pegado, namorado e transado. Foi aí que de repente ela soltou:
- Dani, tu já assistiu filme pornô?
Eu que nem se quer esperava uma pergunta dessas, respondi:
- Já.
- Tem tempo, mas já assisti.
Só que ai veio à curiosidade, do por que o interesse dela e então perguntei:
- Sim, porque o interesse...
- Anda assistindo eh???
E com a cara mais lavada e na maior naturalidade ela me respondeu:
- O que é que tem?!
- Já assistir um monte lá em casa
- Oxente...
- E quem anda te emprestando esses filmes Dinha (o apelido de Ananda)
- Marquinho (irmão de Jessica) tem um monte menina.
- Teve uma vez que juntou eu, Marquinho, Jessica e Jó (irmão de Ananda) pra assistir
- Então formaram os casais e todo mundo se pegou neh....
- Não menina!!! Jéssica ficou até com Jó, mas eu só tava assistindo...
- Sei...
- Só assistindo!!!
- Oxe minha filha, ainda sou virgem.
- E tu anda assistindo esses filmes pra que mesmo?
- Pra aprender as posições?? (risos e mais risos)
- Neh não é?
- Daniiii, tinha uma mulher lá que gritava...
- Teve outra que tava com dois homens de vez, fazendo cada posição.
Eu e Carol não nos agüentávamos de tanto ri. E o mais interessante é que ela estava cada vez mais empolgada em encenar as partes e os gemidos do filme. Foi ai que eu disse:
- Eitâ, que essa Ananda deve ter um fogo da porra!
- Imagine quando isso começar a praticar...(risos)
Mas agora quem estava de saída era eu. 10 horas da noite e eu ainda tinha um trabalho para começar a fazer.
– Meninas já dei muita risada, mas ta na minha hora...
- Boa noite viu
- Ta cedo Dani, vai agora não, disse Carol.
- Oxente!!!
- Gostou do papo num foi!?
- Essa Carol é outra, sonsa...
- Eu não!!!
- Ta bom...Tchau!!!
EEhhh....o mundo até que continua o mesmo, mas essas crianças. HUM...Com certeza não!!!!

Quando agente menos espera...

Por: Talita Costa

Era uma tarde de sexta feira, eu havia saído de casa apressada, andava tão confusa ultimamente, que não sabia até aquele momento, para onde deveria ir. Sabia apenas que precisava sair e dissipar aquela nuvem obscura de dúvidas e vontades que pairava sobre minha cabeça e enquanto pensava sobre essas coisas, entrei no primeiro carro que me levaria a novas experiências.

Sentada no banco da frente, sem nem levantar o olhar ou prestar atenção ao que ocorria, ele apareceu:

- O cinto – pediu para o rapaz que sentava ao meu lado.

Nesse momento, olhei para ele e sorri.

- Boa tarde! Ele disse.

- Boa tarde.

Naquele momento, percebi que aquela viagem de pouco mais de uma hora, me envolveria numa relação de jogo de conquistas da qual eu não estava acostumada. Aquele homem de 35 anos, não é realmente o tipo de pessoa que eu conheço todos os dias e que claro, não deixaria passar.

Passamos metade do caminho em silêncio. Tentei ler um livro, dormir um pouco, enquanto ele pegava e despachava passageiros.

- Alô! Não minha filha, estou chegando em salvador agora, depois papai te liga – falou ao atender ao telefone.

 “FILHA! Será que ele é casado!”, pensei. Procurei a aliança entre os dedos sem encontrar nenhum sinal do que poderia me impedir a prolongar aquele momento.  Foi quando de um impulso, perguntei:

- Como é seu nome?

- Roberto. Porquê?- perguntou sem entender.

- Curiosidade. Estava fazendo uma matéria sobre transporte alternativo e todos me informaram que você seria a pessoa mais indicada a falar do assunto.

A partir daí foi fácil chamar a atenção dele pra mim.

- Você é daqui de Salvador?- perguntou.

- Não. Aqui é só mais um dos meus pontos de troca de carro. Ainda tenho que pegar outro para chegar ao meu destino.

- Você é de onde?

- Um lugarzinho no fim do mundo. Você não conhece.

- E faz o quê lá em Cachoeira?

- Faculdade de jornalismo.

- Uma vez eu dei uma entrevista para duas meninas de jornalismo. Acho que a matéria nem chegou a sair.

- É... a minha também não foi pra frente, infelizmente.

Entre perguntas e mais perguntas, soube sua idade, onde morava, que era solteiro. Ele também não perdia a oportunidade de saber mais ao meu respeito. O interesse entre agente estava tão na cara que as cantadas começaram a ser mais objetivas: 

- Você mora aqui há dois anos e eu nunca lhe vi. Por onde é que você andava? – perguntou, não esperando uma resposta, mas dando uma deixa para afirmação que viria a seguir     – Também agora eu não te esqueço mais. Talita....

A viagem ia chegando ao fim e eu, naquele dia, tinha dissipado a nuvem que pairava sobre a minha cabeça e esquecido por instante das dúvidas que me atormentava. O que estava acontecendo entre nós dois, serviu de consolo para as desastrosas investidas que eu andava dando nos últimos tempos. E de onde  agente menos espera a coisa acontece:

- Eu vou parar logo mais ali na frente – falei, quando cheguei ao meu destino.

- Não... pode deixar que eu te levo.

- Não precisa. Eu sempre por ali, estou acostumada.

- Qualquer dia desse eu te chamo pra sair lá em Cachoeira.

   - Certo. Foi um prazer conhecê-lo... Pode parar aqui!

Entrevista profissional

Toniel Costa

Tarde de terça-feira. Após ser aprovado no processo seletivo, Cláudio se prepara para a tão aguardada entrevista. Estava impecável. Terno, calça e sapato social preto, barba e bigode bem feitos, unhas limpas, perfume leve e pasta bem conservada. Os comentários eram de que o entrevistador é mau humorado; o que faz Cláudio ficar mais nervoso ainda. Chegando na empresa que atua na área de gêneros alimentícios, a recepcionista autoriza a sua entrada. Ombros alinhados, costas eretas, olhar brilhante, andar correto, postura firme, voz pausada, Cláudio cumprimenta o entrevistador:
- Com licença, boa tarde!
- Boa tarde. - responde o entrevistador.
- Qual o seu nome completo?
- Cláudio da Silva Andrade.
- Fale-me um pouco de si.
- Sou formado em Administração pela Uneb, fiz também um curso á distância de Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas, sou uma pessoa centrada naquilo que faço, porém sempre disposto á ouvir e aprender.
- Quais outras características você tem?
- Sou entusiasmado, persistente, responsável, dedicado e criativo.
- O que você procura nesse emprego?
- Vejo como uma oportunidade de ampliar a minha experiência na área administrativa e contribuir para a consolidação da empresa no mercado.
Até então tranqüilo na entrevista, chega o momento que exigiria mais honestidade e cautela de Cláudio.
- E os seus pontos fracos? – questiona o entrevistador.
Após uma pausa de cinco segundos, Cláudio responde com franqueza;
- Sou perfeccionista e impaciente.
Foi a vez do entrevistador fazer uma pausa de seis segundos. Cláudio aguardava a próxima pergunta, mas veio um comentário sobre sua resposta.
- Quanto á isso, geralmente os bons profissionais apresentam essa característica que pode ser trabalhada no decorrer do tempo. Porém estou satisfeito com o seu relato, que será devidamente avaliado pela empresa.
Aliviado, Cláudio se retirou da sala do entrevistador com o sentimento de ter se saído bem na entrevista e de ter boas chances de ficar com a vaga.

Conquistando o mundo

Daiane Dória

Sábado. Dia bom para sair à noite e encontrar alguém. Em Salvador, sábado é dia de festa. Pink e Cérebro combinam de sair para conquistar o mundo.
- Passo em sua casa às dez. Diz Pink.
No horário marcado Pink chega. Cérebro já esperava por ele. Resolvem ir a um barzinho mui conhecido na cidade, o Tijuana, onde iriam encontrar outros amigos.
- Olha quem tá ali Pink! Acho que vou lá. Fala Cérebro olhando para uma mesa com três garotas.
- Nem chegou direito hein. Vá lá cara.
A noite segue e Cérebro consegue enfim conquistar a garota. Pink também fica com uma amiga, mas não é nada que vá além do Tijuana.
- Já tô indo véi. Vai ficar aí? Pergunta Pink.
- Não. Só que não vou pra casa não. Dá pra você me deixar ali no Campo Grande? Diz Cérebro afirmando sutilmente que a noite não terminaria ali.
- Vamo lá.
Pink deixa Cérebro e sua acompanhante nu motel e vai levar sua amiga em casa. No caminho, o celular toca, era Cérebro:
- Fala...
- Ô Pink véi, eu tô aqui morrendo de fome. Tem quase uma hora que eu pedi um rango e até agora nada e pra completar ainda ficam tocando a campainha toda hora.
Pink dá uma gargalhada que deixa Cérebro ainda mais angustiado.
- Qual foi cara?
- Você já olhou do lado da porta? Tem uma portinha, a comida tá lá dentro e tão tocando a campainha pra avisar porque vocês estão demorando demais pra pegar. Responde Pink às gargalhadas com sua amiga dentro do carro que ouniu toda a conversa.

O que é a vida, afinal?

Quinta feira pela manhã, estava sentado a mesa, lendo um livro bastante usado com capa vermelha e no centro um quadrado amarelo para destacar o título. Tão concentrado que estava com o estudo, que só fui me dar conta da discussão em seu final. Foram seis estrondos:
- São fogos de artifício – disse alguém.
- Não, não são fogos, isso são disparos de arma – disse meu irmão.
Voltei ao que fazia sem dar importância. Tanto fazia se eram disparos de arma ou fogos de artifício.
O telefone toca.
- Meu Deus! – exclamou minha mãe com a voz quase aos prantos, porem sem derramar uma lagrima – não pode ser, já avisaram para ela.
Preocupado com o tom de voz de minha mãe, não esperei a ligação se completar, corri até ela e perguntei, mais curioso que nervoso, ao contrario dela:
- O que foi?
- Seu Zé foi baleado na frente da casa de sua madrinha.
A boca secou. Fiquei sem reação. Agora fazia sentido os seis disparos ouvidos minutos antes.
- Quem lhe avisou?
- Sua madrinha.
- Foi baleado aonde? – não dei tempo para resposta, engatilhei outra pergunta – Já foi socorrido?
- Não sei, estou muito nervosa.
- Liga para o meu pai, fala com ele – disse.
Nada de o celular dar resposta.
- Não atende.
- Continua tentando. Fala para chamar a policia.
Antes de tentar nova ligação o telefone toca novamente.
- Como posso avisar isso para ela? Como avisar que seu Zé foi baleado. Não consigo – falava ao telefone minha mãe que não desgrudava dele.
- E ai? – pergunto
- Foram quatro homens armados que disparam contra ele, que também estava armado. Seu Zé e sua mania de andar armado, eu sabia que poderia acontecer alguma coisa. Ele já ta velho e quer tirar uma de valentão.
- Não sabem em que parte do corpo foi baleado? – perguntei. A essa hora a prova que tinha a noite já fora esquecida.
- Eu vi tudo – disse um vizinha que tinha acabado de chegar em minha casa – os mal encarados, estacionaram o carro do lado lá de casa e saíram como se tivessem perseguindo alguém!
Estava agitado e queria saber mais. Meu pai chegou em casa, disse que a policia já estava no local do crime e que tinha conversado com o filho da vitima, também policial, que lhe disse que seu Zé fora encaminhado para o Hospital.
- Será que não foram as mesmas pessoas as quais ele, semana passada, impediu que assaltassem uma pessoa atirando pára cima, para assustá-los? - essa foi a minha primeira suspeita desde que fiquei sabendo do ocorrido.
- Pode ser.
A tarde já entrava e dessa vez as noticias já vinham mais concretas.
Os assaltantes passaram por seu Zé já o ameaçando:
- Entra velho, entra!
Nosso policial aposentado não é de levar desaforo e saiu ao enfrentamento, mostrando a arma que carrega consigo diariamente.
Houve troca de tiros. Sei Zé foi alvejado por três disparos. Dois na perna e um no estomago.
- Já esta sendo operado – disse minha mãe – quem o socorreu foi o próprio neto.
Mais de uma semana depois, ninguém sabe o destino dos elementos, seu Zé repousa depois do “susto” e recebe muitas visitas.
- Tomara que nosso Charlton Heston, ou melhor, Clint Eastwood entenda que em Hollywood tudo é encenação e deixe de ficar com essa arma para lá e para cá – disse brincando, como consigo brincar uma hora dessas, mas, o que é a vida afinal?
Hamurabi Dias

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Minha aldeia

Carine Costa
Nasci cresci e vou morrer em Iritinga, esta é uma frase que eu falo com muita convicção, depois de ter passado umas férias decepcionantes em Salvador, durou apenas uma noite. Iritinga é um vilarejo do sul da Bahia, desconhecido pela maioria das pessoas. Eu sempre quis conhecer Salvador, tinha até o sonho de ir morar lá.
-Salvador é a capital do progresso, falava minha prima Cátia.
Cátia foi criada junto comigo, como se fosse minha irmã, aos 10 anos foi morar com os pais lá na capital na busca de melhores oportunidades. Sempre nas férias ela vinha para cá, ficava exaltando a cidade. Mostrava para todos que estava muito bem de vida e que tinha evoluído intelectualmente mais que todos. Eu de pronto fiquei ansiosa para conhecer o modo de vida na capital. Como minha prima nunca me convidava para casa dela, eu tive que tomar a iniciativa.
-Prima, nas minhas férias vou para sua casa.
-Mas prima, você pode não acostumar com o barulho e a agitação de Salvador.
-Tenho certeza que vou gostar.
Cátia relutou um pouco, mais por fim concordou, não conseguiu fazer nada diante da minha cara de pau.
Nas férias lá fui eu, meu coração disparou ao chegar na capital por volta das dezoito horas, no caminho para a rodoviária, olhei pela janela do ônibus e vi o shopping, fiquei admirada diante de tamanha beleza. Tudo me encantou, os carros, a praça, as pessoas, as passarelas, os vendedores, os prédios tão altos, apenas me entristeci ao ver várias crianças no semáforo pedindo esmola e limpando os pára brisas dos carros, em troca de poucas moedas ou simplesmente um obrigado. Ao desembarcar vi minha prima, abri um sorriso e fui em sua direção. Caminhamos para o ponto.
-E ai Gertrudes, como foi de viagem?
-Fui ótima, e então Cátia ,aquele é o táxi?
-Táxi? Ora essa, tá pensando o que prima? Veja se eu vou gastar dinheiro com táxi, nós vamos é de GOL- Grande Ônibus Lotado. Corre que lá vem o busão.
Minha prima me puxou pelo braço, foi uma correria, um amontoar de gente em torno da porta, um empurra- empurra geral, um queria entrar na frente do outro para achar assento.
-Cátia este ônibus está lotado, vamos esperar outro, tentava eu, espremida na porta pelo povo, convencê-la.
- Eu sei Gê, mas ônibus para periferia demora muito, e todos são cheios como este, calma que apertando sempre cabe mais um. Trouxe a passagem?
-Quanto custa?
-Dois contos.
-Eu tenho sim.
-Ótimo, vou passar junto com você, para economizar meu dinheiro.
Minha prima me espremeu na borboleta, além do sufoco, tive que ouvir os desaforos do cobrador.
-Ei vocês duas, são muito sem vergonhas heim? Tão vendo que não pode passar duas pessoas, a passagem é individual suas pilantras.
-Vai te catar, tá incomodado pague a minha, seu puxa saco de empresa. Retrucou Cátia.
Todos no ônibus assistiam aquela cena. Fiquei morta de vergonha, minha prima me empurrava, berrando atrás de mim.
- Anda lerda, tem mais gente querendo entrar.
Era quase impossível dar um passo a frente, o ônibus estava tomado de pessoas, quando eu tentava andar mais um pouco ouvia reclamações.
- Veja por onde tá pisando sua cega, olha meu pé; -empurra não, tá pensando que é quem que tá aqui? – Vê se não me leva junto, nem rasga minha roupa, vai ter dinheiro para me dar outra?
Achei um minúsculo espaço, segurei numa pontinha do ferro, disputado por muitas mãos. Cátia ficou ao meu lado. O trânsito estava congestionado. Iríamos demorar em torno de duas horas para chegarmos na periferia segundo Cátia. Enquanto isso era obrigada a escutar um barulho insuportável no fundo do ônibus. Um grupo de rapazes batucava nas cadeiras, pulavam e gritavam totalmente desafinados.
-“Vaza canhão, vaza canhão e vaza canhão”
Quando olhava em volta, percebia muitas pessoas com os rostos indiferentes a situação, estavam cansadas, outras cochilavam em pé ou sentadas. Eram trabalhadores, que ao passar o dia todo trabalhando, ainda tinham que agüentar este transtorno na volta para casa. De repente sentir algo estranho nas minhas costas, para ser mais precisa no meu bumbum. Disfarçadamente olhei para trás e me deparei com um homem barrigudo, careca e fedendo a suor. Ele estava se esfregando em mim, olhou-me com uma cara tão maliciosa que me deu nojo, eu gelei naquele momento. Cátia percebeu o caso e armou o maior barraco.
-Tá “comendo terra” em minha prima, seu velho safado, se compreenda seu ridículo, vá procurar quem te queira. Seu motorista pare na primeira delegacia ai, para essa coisa ir pro xilindró.
- Eu tô fazendo nada não moça, já tô até indo embora. Apavorado falou o homem.
O pessoal do fundão ficou aos gritos... “haê, haê, haê, pega o tio, deixa escapar não”. Eu procurei um buraco para enfiar minha cara, nunca imaginei passar tanta vergonha numa cidade que eu achava ter tanto glamour. Toda viagem foi um suplício, olhava para o vazio, minhas pernas doíam, pessoas me empurravam a todo instante, berravam.
- Motor meu ponto. Tá dormindo? É pago para quê?
Quando desci daquela bagunça, cheguei a um lugar feio, cheio de bares, muito barulho, casas amontoadas e quase nenhuma urbanização. Essa era uma Salvador que eu na conhecia, fiquei desiludida. Já estava com saudades do meu vilarejo, queria voltar.
-Seja bem vinda Gê, suas férias serão ótimas.
-Pela recepção já deu para eu vê. Prima cátia, você tinha razão, aqui não é o meu lugar, amanhã retorno para meu vilarejo, e vou de dia, porque ônibus lotado nunca mais.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Eu e minha prova oral

por Daniela Oliveira

Eu e minha turma do curso de inglês, estamos do lado de fora da sala, esperando ansiosamente nossa colega sair da prova oral e nos contar como tinha sido. Ela sai da sala e nós todos perguntamos:
- Como foi de prova? Ela te perguntou o que?
- Ela me perguntou quantos anos minha filha tinha,só me veio na cabeça “dez”, mas ela já tem 14, e eu sei lá como é 14 em inglês?
O riso é geral,nem ela se contém.
Um a um vai entrando e saindo da sala, contando mais algumas perguntas que a professora fez e quando restam apenas eu e um colega, chega minha vez. Me sinto uma verdadeira ovelha indo ao matadouro,já me dei mal em uma prova hoje,outra ruim não vou agüentar!!! (risos). Entro na sala,sento em uma cadeira em frente a Paula, minha professora, e aí começa o turbilhão de perguntas, que seriam bem simples de responder, se não fossem feitas todas ao mesmo tempo, em inglês e ainda mais eu estando tão cansada,mas vamos lá!
- Boa noite Dani, como você ta?
- cansada, muito cansada.
- Você estudou hoje?
- Sim.
- Você estuda aonde mesmo?
- Cachoeira
- Faz qual curso?
- Jornalismo
Me sinto em um verdadeiro interrogatório, essa primeira parte ela fez perguntas óbvias e de maneira devagar. Até aí tava massa, era só eu responder com respostas curtas e tudo ia acabar bem,pelo menos assim eu esperava.
- Quantos anos você tem? Mora com seus pais? Quantos anos eles tem?
- Hã? Calma, calma! (risos)
- Ok (risos)
- Eu tenho 20 anos, moro com meus pais. Meu pai tem 48 anos,minha mãe 45.
- Você tem irmãos, irmãs?
- Sim, um irmão. Nenhuma irmã
- Quantos anos ele tem?
- 24 anos
- Ele costuma pegar no seu pé?
- Não! Nunca. (risos)
- Você gosta de morar com os seus pais?
- Não.
- Por que?
- Hum...ah eu não consigo explicar o porque em inglês, não sei as palavras!
- Bem...e você pretende fazer o que depois do curso? Quer continuar morando com seus pais por mais tempo?
- Não, quando eu concluir meu curso, quero morar em outra cidade.
- Qual?
- Aracaju
- Você gosta de Aracaju?
- Sim. Meu namorado mora lá.
- Vocês namoram a quanto tempo?
- 1 ano e 9 meses.
- É um bom tempo!!
- É sim.
- Bem, Daniela, acabamos.
- Ok
Depois disso abro um rápido sorriso,mais de alívio do que de qualquer outra coisa! Levanto da cadeira, pego minha bolsa e meu caderno e olho em direção a Paula e meu colega Manassés:
- Boa noite, tchau.
- Boa noite Dani, tchau.